

Houve um tempo em que o Rio de Janeiro acreditava que o futuro podia ser contratado. Não no sentido moderno de seguro ou previdência, mas num pacto mais profundo, quase silencioso, firmado entre vivos, mortos e instituições que prometiam durar mais do que qualquer indivíduo. Esse tempo — mais lento, mais fiel à repetição do que à pressa — foi organizado, durante séculos, pelas irmandades religiosas que moldaram a cidade muito antes de ela aprender a correr.
Ao contrário do que hoje se imagina, essas irmandades não eram apenas associações de devoção ou grupos de procissão. Eram estruturas estáveis de confiança. Gente comum, comerciantes, proprietários, viúvas, funcionários do Império e até figuras modestas do cotidiano urbano deixavam a elas aquilo que tinham de mais sólido: casas, terrenos, fazendas, rendas, títulos. Assim também o fizeram grandes personalidades. Não como um gesto vago de piedade, mas como um acordo preciso. Em troca, a irmandade assumia uma dívida que não se pagava em dinheiro, mas em tempo.
Esse tempo vinha marcado em detalhes. Missas todas as quartas-feiras. Ofícios celebrados todos os anos no dia da Epifania do Senhor. Sufrágios perpétuos. Orações repetidas enquanto a cidade mudava, enquanto ruas ganhavam novos nomes, enquanto gerações inteiras nasciam e morriam. O benfeitor partia, mas continuava presente no calendário da cidade. O sino que tocava, a vela que se acendia, o nome que era lido em voz alta: tudo isso fazia com que alguém, morto havia décadas, ainda ocupasse o tempo do Rio.
É nesse ponto que a pesquisa de Beatriz Catão Cruz Santos ajuda a compreender a dimensão concreta desse sistema. Os legados não eram simbólicos: estavam registrados, administrados, fiscalizados. A irmandade que os aceitava passava a carregar uma obrigação que atravessava mesas diretoras, mudanças políticas, crises financeiras e até períodos de decadência urbana. Havia um compromisso institucional com aquilo que fora prometido — e romper esse compromisso significava romper com a própria razão de existir da irmandade.
Mas há algo ainda mais delicado nesse arranjo, algo que a leitura sensível de Geysa Pereira de Magalhães ajuda a iluminar. Esses legados não organizavam apenas o tempo da instituição; organizavam o tempo da vida. Eles ensinavam à cidade que nem tudo acontece no agora. Que existem esperas legítimas. Que a repetição também é uma forma de cuidado. Que o futuro pode ser preparado com gestos feitos no presente — ou mesmo antes dele.
Alguns desses compromissos iam além das missas e alcançavam diretamente o tecido social, deixando marcas que o carioca ainda pode ver e viver hoje. Um dos exemplos mais eloquentes é o Educandário Gonçalves de Araújo, instituição fundada no ano de 1900 sob os auspícios da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Candelária, a partir do legado deixado pelo abastado comerciante português Antônio Gonçalves de Araújo.
Quando faleceu, em 1889, Gonçalves de Araújo determinou em testamento que sua fortuna fosse destinada à criação de um asilo para crianças desvalidas — um lugar onde pudessem receber sustento, educação e instrução. A Irmandade da Candelária acolheu não apenas o patrimônio, mas a responsabilidade de fazer desse compromisso uma realidade duradoura. Assim foi construído um edifício que, com sua arquitetura neogótica, ergue-se até hoje no bairro de São Cristóvão e que, ao longo de mais de um século, tem sido espaço de aprendizado, acolhimento e transformação.
O legado de Araújo não era apenas uma doação; era um contrato com o futuro. A instituição educacional que leva seu nome continuou, ano após ano, a cumprir o propósito traçado pelo benfeitor: oferecer educação e formação integral, com atenção à fé, à cultura e à dignidade humana. O que começou como um asilo para crianças desvalidas evoluiu para um colégio que já formou milhares de alunos e alunas, ofertando ensino gratuito e atividades que continuam a moldar vidas.
Por vezes, os legados determinavam que, todos os anos, a irmandade deveria pagar dotes para moças órfãs, permitindo que elas se casassem e construíssem uma vida que, sem essa ajuda, talvez lhes fosse negada. Um dos exemplos mais eloquentes desse sistema é a Fundação Romão de Mattos Duarte, ligado à tradição assistencial da Irmandade da Santa Casa da Misericórdia. Ali – onde ficava a famosa Roda dos Expostos, onde crianças eram deixadas aos cuidados da confraria e das freiras vicentinas – o tempo também era herança. O gesto de alguém que já havia morrido sustentava futuros que ainda não existiam: casamentos, famílias, descendências inteiras.
Há casos em que esse pacto com o tempo se fecha de forma quase perfeita. Um dos mais emblemáticos é o de Luiza Rosa Avondano Pereira, exposta ainda bebê na roda da Santa Casa do Porto. Criada sob os cuidados da instituição, ela viria a se casar, enriquecer e, ao falecer em 1850 no Rio de Janeiro – cidade com uma pujante Irmandade da Misericórdia – deixaria grande parte de seus bens justamente à Santa Casa carioca. Sua vontade: a criação de um Asilo, o que ocorreu e durou por mais de 100 anos após a sua morte. Hoje, funciona no local a Escola Eleva, mas a obra beneficente sobreviveu mais de um século, e mesmo após terminada naquele local, sobrevive através das outras obras da Santa Casa. A criança abandonada tornava-se, assim, benfeitora — não por acaso, mas porque alguém acreditara, desde o início, que sua vida merecia investimento, paciência e futuro.
Inácio de Medela deixou muitas e muitas “moradas de casas” onde hoje fica a região da Praça XV para irmandades. Por isso aquela região acabou permanecendo como imagem de um passado que não volta mais. Fossem casas particulares, certamente já não haveria mais o casario do Arco do Teles, por exemplo. Outras áreas geraram grandes equipamentos, como a UFRJ da Praia Vermelha, doada junto com quase metade de Botafogo pelo Vigário Miranda à Santa Casa, que construiu aquela linda edificação como espaço dedicado à saúde, depois assumida pelo Estado e transformada em universidade.
É difícil não perceber como isso tudo contrasta com a cidade de hoje, ansiosa, imediata, sempre à espera de soluções instantâneas. O Rio das irmandades acreditava na duração: “long term thinking”, muito antes do jargão de “business”.. Acreditava que uma promessa feita precisava ser cumprida mesmo quando ninguém mais se lembrava de quem a fizera. Acreditava que a memória não é só lembrança, mas prática contínua. E, sobretudo, acreditava que o tempo podia ser organizado coletivamente — não pelo Estado, mas pela fé partilhada.
Talvez por isso essas instituições tenham sobrevivido a impérios, repúblicas, reformas urbanas e abandonos sucessivos do Centro da cidade. Elas não eram apenas prédios ou imagens devocionais. Eram guardiãs do tempo. Administravam – na verdade o fazem até hoje / calendários invisíveis, compromissos silenciosos, dívidas que não prescreviam. No Rio antigo, o futuro não era uma aposta; era uma responsabilidade. Todos os sábados e domingos, às 12h15, na Igrejinha dos Mercadores, reza-se “pelos irmãos falecidos, provedores, benfeitores e beneméritos” daquela Irmandade. Assim é há 275 anos.
Hoje, ao passar pela fachada do Educandário Gonçalves de Araújo, ao ver as crianças circulando pelos pátios ou entrando em salas de aula, o carioca moderno está diante de um testemunho vivo de que a fé traduzida em obra social pode ultrapassar séculos — não como linguagem morta, mas como ação contínua no tempo e no coração de uma cidade. Isso é herança. Isso é memória que respira. E isso nos lembra que, antes de aprender a correr, o Rio aprendeu a esperar.




