

Nos últimos dias, três notícias distintas — e ao mesmo tempo inquietantemente semelhantes — voltaram a expor a fragilidade estrutural da política de preservação do patrimônio histórico no Rio de Janeiro. A primeira, trazida aqui no Diário do Rio, trata da investigação de uma organização criminosa suspeita de desviar cerca de meio bilhão de reais de instituições de caridade no Centro da cidade, muitas delas instaladas em imóveis históricos, alguns fechados há anos, como a Igreja da Conceição e Boa Morte. A segunda noticia o incêndio de um casarão na Lapa, onde funcionava uma antiga boate: mais um exemplar do casario histórico do referido bairroconsumido pelas chamas em um cenário de abandono, uso precário ou ausência total de manutenção. A terceira, exibida pelo Bom Dia Rio, apresenta a louvável campanha do IPHAN para este Carnaval, voltada ao uso consciente e à preservação dos prédios históricos diante do uso intensivo do espaço urbano.
Tomadas em conjunto, essas notícias suscitam uma pergunta incômoda, mas inevitável: não parecem todas variações da mesma tragédia anunciada? Mudam os atores, mudam as circunstâncias imediatas, mas o pano de fundo é sempre o mesmo — ausência de conservação preventiva, monitoramento insuficiente, imóveis históricos fechados por longos períodos, risco constante de incêndio, depredação e uso indevido. O que se vê é um Estado — e uma sociedade — que seguem reagindo aos desastres, em vez de estruturar mecanismos para evitá-los.
No caso das instituições de caridade no Centro do Rio, é fundamental reconhecer e elogiar o esforço da Arquidiocese do Rio de Janeiro, que tem atuado ativamente para apurar irregularidades, proteger o patrimônio sob sua responsabilidade e colaborar com as autoridades. Trata-se de uma postura institucional responsável, que compreende que a defesa do patrimônio cultural passa também pela boa governança, pela transparência e pela vigilância permanente. Ainda assim, o episódio revela um problema maior: edifícios históricos fechados, subutilizados ou abandonados tornam-se presas fáceis — não apenas para crimes financeiros, mas também para incêndios, invasões e deterioração acelerada.
O incêndio do casarão na Lapa é outro sintoma dessa mesma lógica perversa. Não se trata de um evento excepcional, mas de mais um capítulo de uma recorrência que deveria impressionar, mas parece ter se tornado banal.Casarões históricos sem uso contínuo, sem manutenção regular, sem sistemas básicos de prevenção e combate a incêndio, tornam-se armadilhas. Quando queimam, perde-se não apenas um imóvel, mas camadas inteiras de memória urbana, técnicas construtivas, ambiências e possibilidades futuras de requalificação. Cada incêndio desses é também uma derrota coletiva, fruto de omissão prolongada.
Nesse contexto, ganha relevo a campanha recente do IPHAN durante o Carnaval, chamando atenção para o cuidado com os bens históricos em meio às grandes aglomerações e ao uso intensivo do espaço público. A iniciativa é louvável e necessária, sobretudo por reforçar a ideia de que o patrimônio não é obstáculo à festa, mas parte constitutiva da experiência urbana e cultural do Rio de Janeiro. Que ações dessa natureza possam se alastrar pelos bairros históricos da cidade e se repetir ao longo de todo o calendário festivo — pródigo em eventos, mas ainda inconsistente em garantir a permanência da riqueza material que serve de pano de fundo para o deslumbramento de turistas e diletantes.
Não obstante, é mister reconhecer: campanhas de conscientização, embora fundamentais, não substituem políticas estruturantes de preservação e conservação preventiva. A pergunta central permanece: por que, até hoje, não foi estabelecido um plano integrado de preservação e conservação preventiva dos edifícios históricos do Rio de Janeiro? Um plano que mapeasse riscos, monitorasse imóveis fechados por longos períodos, implantasse protocolos mínimos de segurança, articulasse responsabilidades entre União, Estado, Município, proprietários e detentores, e atuasse antes que o desastre acontecesse.
Cada esfera do poder público poderia contribuir de maneira objetiva. O município, por exemplo, detém instrumentos de fiscalização urbana, licenciamento e uso do solo; o estado pode estruturar ações de defesa civil, corpo de bombeiros e políticas regionais de cultura; a União possui expertise técnica, capacidade normativa e instrumentos de articulação nacional. Falta, porém, coordenação contínua, e não apenas respostas pontuais a crises.
Nesse sentido, é absolutamente plausível — e desejável — a criação de um centro de monitoramento ou observatório do patrimônio cultural do Rio de Janeiro. Um espaço técnico, interinstitucional, capaz de reunir dados sobre imóveis históricos, mapear vulnerabilidades, acompanhar usos, identificar riscos iminentes e acionar preventivamente os órgãos competentes. Nada disso é futurismo: trata-se de governança básica aplicada a um patrimônio urbano de valor inestimável.
Há ainda um outro ponto que precisa ser enfrentado sem rodeios. Grandes eventos que se beneficiam diretamente do valor simbólico e visual do Centro do Rio — desfiles de clubes de futebol, grandes escolas de samba, blocos milionários, megafestas — utilizam espaços públicos de altíssimo valor histórico e cultural. Por que não exigir, como contrapartida objetiva, a destinação de recursos para a conservação desses mesmos espaços? O Centro do Rio não é apenas cenário: é patrimônio vivo, que agrega valor econômico, estético e simbólico a esses eventos. Vincular o uso intensivo desses logradouros a investimentos obrigatórios em preservação não seria penalização, mas responsabilidade compartilhada.
Ao final, as três notícias que motivam esta reflexão convergem para uma constatação desconfortável: o Rio de Janeiro ainda trata seu patrimônio de forma episódica, reativa e fragmentada. E isso apesar de esforços relevantes — como os da Arquidiocese do Rio de Janeiro e do IPHAN — que demonstram que há caminhos possíveis quando há compromisso institucional.
É preciso, portanto, transformar exceções em sistema. Planejamento permanente, conservação preventiva, monitoramento contínuo, corresponsabilização entre poder público, instituições, usuários do espaço urbano e grandes promotores de eventos. O patrimônio histórico do Rio não pode continuar sobrevivendo à base de campanhas emergenciais, lamentações pós-incêndio ou investigações tardias.
Preservar não é apenas restaurar depois da perda. Preservar é evitar que ela aconteça. E essa é uma dívida antiga que a cidade — e seus gestores — ainda precisam saldar com sua própria história.



