Um anúncio que pede prova
O anúncio de que o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, teria garantido ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva apoio à Deputada Benedita da Silva na disputa pelo Senado caiu como uma bomba no tabuleiro político fluminense.
Considerando a histórica fama de Eduardo Paes de ser um político que não cumpre suas promessas, sejam as dirigidas aos políticos, aos cidadãos ou aos servidores, a pergunta que se impõe, desde então, é simples e incômoda: esse apoio é para valer ou é apenas “para inglês ver”?
O contexto da promessa feita no Planalto
Segundo noticiado pelo jornal O Globo, no dia 15 de janeiro, o prefeito Eduardo Paes correu ao Planalto para uma conversa reservada com Luiz Inácio Lula da Silva após crescer, no Partido dos Trabalhadores (PT), a desconfiança sobre sua lealdade eleitoral no Rio. Paes teria avisado que deixará a Prefeitura em 20 de março para disputar o governo estadual, prometeu apoio à candidatura de Benedita da Silva ao Senado e tentou conter o mal-estar provocado por seus acenos ao bolsonarismo.
O pano de fundo é o temor do prefeito de uma articulação entre o Partido dos Trabalhadores e Rodrigo Bacellar, que poderia levar André Ceciliano ao governo interino via eleição indireta na Alerj.
Embora o gesto do prefeito tenha sido bem recebido, o texto da matéria aponta que a confiança do Planalto permanece cautelosa, diante das incertezas sobre alianças nacionais e do histórico recente de flertes de Paes com a direita no estado.
Política em estado bruto.
O problema central: e Pedro Paulo, fica onde nessa história?
A dificuldade dessa narrativa começa quando se observa que o principal representante de Eduardo Paes no Congresso Nacional é o deputado federal Pedro “PEC da Blindagem” Paulo.
E Pedro Paulo não é um coadjuvante qualquer. Ao contrário: ele é peça-chave do projeto político de Paes em Brasília.
Por isso, enquanto não houver a desistência formal de Pedro Paulo da pré-candidatura ao Senado, o tal apoio à Benedita continuará sob suspeita.
Fica difícil acreditar que o Eduardo Paes não fará tudo para o Pedro Paulo virar Senador, pois, se a Benedita e não o Pedro Paulo for a eleita, Paes perderá seu principal articulador em Brasília.
Mesmo sabendo que teremos duas vagas para o Senado neste ano, o Paes não teria o poder de ocupar essas duas vagas com seus indicados. Logo, ele terá que privilegiar a campanha de um dos dois.
Quem será? A Benedita ou o seu principal articulador político em Brasília, o Pedro Paulo.
Creio que esta pergunta tem uma resposta óbvia.
O “Caçador de Servidores Concursados”
Pedro Paulo ganhou, com justiça, o apelido de “Caçador de Servidores Públicos Concursados”.
O motivo é concreto e documentado: ele coordenou o grupo de trabalho e é o atual relator da última versão da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Reforma Administrativa, aquela que incentiva a contratação temporária em substituição aos concursos públicos.
Algo que a prefeitura de Paes já faz amiúde e que este deverá levar esse “amor” por contratos temporários, por nomeações políticas travestidas de cargos de confiança e por terceirizações, e seu ódio pelos servidores concursados também para o Estado, caso seja eleito governador neste ano.
E aqui é preciso explicar com clareza:
- Contratação temporária cria um vínculo precário, pessoal e politicamente dependente;
- O contratado temporário, ao buscar a renovação sucessiva de seu vínculo — que, no âmbito da Prefeitura do Rio de Janeiro, pode se estender por até seis anos — corre o risco de não se orientar primordialmente pela Constituição e pela legislação, mas de se submeter à vontade de quem o contratou;
- Se não seguir ordens — mesmo que ilegais ou inadequadas — correrá o risco de não ter seu contrato temporário renovado.
Já o servidor concursado tem estabilidade exatamente para não se submeter a pressões políticas, respondendo apenas à lei e à Constituição.
É por isso que aquela PEC não é neutra: ela fragiliza o Estado e fortalece o controle político sobre a máquina pública.
E o Deputado Pedro Paulo tem um papel relevante nesse mister no Congresso Nacional, seja como Deputado Federal ou, com mais poder, como Senador.
A pré-candidatura de Pedro Paulo ao Senado já está posta
Na prática, não se trata sequer de uma hipótese distante. A pré-candidatura de Pedro Paulo ao Senado já foi anunciada, aproveitando o vácuo deixado por Flávio Bolsonaro, que passou a se colocar como pré-candidato à Presidência da República.
A movimentação foi detalhada em 6 de dezembro passado, conforme informado em reportagem de Berenice Seara, no Tempo Real, sobre um jantar no restaurante Satyricon, em Ipanema, no qual se definiu a estratégia do PSD para 2026.
Pedro Paulo na vaga do Senado; e a disputa pela candidatura a deputado federal entre Guilherme Schleder e Márcio Ribeiro.
Ou seja: o projeto da campanha de Pedro Paulo ao Senado está em curso, organizado e publicamente assumido.
A contradição que não fecha
É aqui que a conta não fecha.
Se Eduardo Paes realmente pretende apoiar Benedita da Silva ao Senado, isso implica abrir mão de Pedro Paulo nessa disputa.
E abrir mão de Pedro Paulo significa abrir mão de seu principal operador político no Congresso Nacional — justamente o relator da reforma administrativa que atende a seus interesses.
Alguém acredita que Paes vai preferir fazer campanha para a Benedita, pouco se importando com o “desemprego” do Pedro Paulo, caso ele perca a eleição para o Senado?
A resposta é óbvia.
Apoio real exige gesto concreto
Enquanto Pedro Paulo seguir pré-candidato ao Senado, todo aquele discurso de apoio à Benedita será, inevitavelmente, visto como retórica eleitoral, um gesto simbólico para acalmar o Planalto, não um compromisso efetivo.
Assim sendo, o Lula e o PT têm toda a razão em se manterem cautelosos com aquela declaração de Paes de apoio à Benedita.
A política é feita de sinais claros, não de declarações vagas.
O sinal inequívoco, neste caso, seria a desistência formal de Pedro “PEC da Blindagem” Paulo da corrida ao Senado e sua candidatura à Câmara Federal.
Vigilância permanente
Portanto, vamos aguardar.
Até agora, não há qualquer informação sobre a desistência de Pedro Paulo. Sem esse gesto, o prometido apoio de Eduardo Paes à Benedita da Silva continuará soando como algo feito apenas para inglês ver — ou, mais precisamente, para o Lula ver.
A política, como se sabe, cobra coerência. E essa história ainda está longe de apresentar a sua.
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