Entre 1960 e 1988, aconteceu, no período pré-carnavalesco do Clube Magnatas de Futebol de Salão, localizado na Rua General Belford no bairro do Rocha, Zona Norte do Rio de Janeiro, o Baile de Horrores.
O evento, que fez história no Rio de Janeiro por quase 30 anos, chamava a atenção da imprensa, assustava e divertia muita gente. Em 2012, Ana Maria Fernandes de Oliveira escreveu uma dissertação de mestrado para a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) sobre o Baile dos Horrores. O texto serviu de base para a matéria do DIÁRIO DO RIO.
A ideia começou quando estudantes de arquitetura da UFRJ, na Praia Vermelha, entre eles José Bonifácio de Oliveira, o Boni, conhecido por trabalhos na TV Globo, resolveram receber os calouros com um evento conhecido como Baile da Régua T, que se realizava no meio do ano, com um tema fantasmagórico.
Em 1959, o ainda não tão conhecido Boni criou a cenografia de um castelo assombrado, onde os convidados e calouros iriam vestidos de vampiros, bruxas etc. O baile foi sucesso.
Assim, no susto, surgiu por parte de José Trancoso a vontade de levar o baile para o Clube Magnatas. Como ele já trabalhava com Carnaval fazendo fantasias para ranchos, chamou José Eugênio Rodrigues para essa saga. Eugênio, um experiente carnavalesco, topou sem medo.
A dupla se uniu ao cenógrafo José Pinto Mendes, que trabalhava em clubes da cidade e abriu portas e portais com o Magnatas. Um ano depois da concepção desse movimento, em 1960, estava criado o Baile dos Horrores.
Divulgação da primeira edição do Baile dos Horrores, 1960
A primeira edição do evento, basicamente, reuniu parentes dos organizadores e vizinhos do Clube Magnatas. Mas ninguém tremeu por isso. O futuro do Baile dos Horrores foi muito além do que se esperava.
Nestes primeiros anos, o ex-policial Roberto Xavier Cardoso também completou o núcleo que organizava o Baile dos Horrores. A principal atração do evento era o concurso de fantasias. A mais “horrorosa” vencia.
Múmias, vampiros, bruxas, lobisomens, humanos banhados de sangue e muitas outras fantasias assustadoras se encontravam no período pré-carnavalesco do Clube Magnatas.
No auge do evento, os jurados do concurso chegaram a ser pessoas muito influentes, como o governador Negrão de Lima, o apresentador Chacrinha, Elke Maravilha, Emilinha Borba, Clovis Bornai, entre outros.
Um dos ápices de fantasias foi a simulação de velórios. Um caixão saía de alguma igreja da região, com alguém vivo dentro fingindo estar morto. O “cortejo” ia até o Clube, onde a festa começava.
A primeira pessoa a interpretar o morto da festa foi Ferdinando Romite. Depois, o Palhaço Chocolate assumiu o papel de forma exclusiva e “morreu” em todas as edições do Baile, até a última, em 1989.
A decoração do evento era um show à parte. Venceu vários prêmios dedicados aos bailes carnavalescos da época. Mesas com caveiras de gesso do tamanho de uma pessoa adulta, luz escura, manchas de “sangue” e mais detalhes deixavam o ambiente sinistro.
Parte da caveira que decorava as mesas. Foto: Ana Maria Fernandes de Oliveira
O papel dos maquiadores era fundamental. Alguns dos mais respeitados profissionais da época praticavam as transformações nos rostos dos horripilantes foliões. Entre eles, Pacheco, da TV Tupi, e Eric Rzepecki.
O Baile dos Horrores chegou a ter 5 mil pessoas participando em algumas edições. Como era de se esperar, chamou a atenção da imprensa. Praticamente todos os grandes jornais, rádios e TVs da época noticiaram o evento em algum momento.




Imagens do Diário de Notícias (1966) e última Hora (1962)
O último ato do Baile foi em 1989. Essa edição aconteceu na Associação Banco do Brasil. No ano anterior, em 1988, não foi possível realizar o evento no Magnatas. Os custos com impostos haviam ficado altos demais e o Carnaval dos clubes de bairro estava morrendo aos poucos, voltando a ganhar vida nas ruas.
Ana Maria Fernandes de Oliveira concluiu em em sua dissertação de mestrado que “De acordo com interrogações e para que se estabelecesse uma narrativa com caracteristicas não só documental em termos de materiais recolhidos, a necessidade de compreensões e curiosidades do por que, da presença de aspectos de fantasias, possuirem particularidades tão marcantes, onde o horror e o grotesco foram o ponto alto de uma festa alegre de carnaval e que principalmente não só chamaria atenção, mas que também durou bastante tempo fazendo sucesso. Quais seriam as possíveis causas desse desejo de expressar sentimentos tão macabros sob o signo de uma mimese tão acentuada? Os signos, seja lá qual for o momento, relata algo e o carnaval, talvez seja o berço mais versátil, espontáneo e irreverente de demonstrar por meio de multidões formas de arte onde a cultura popular sob o “comando” do povo, inconscientemente ou não demonstra a poética de um dizer, criando um mundo que sob intuição recrie expressões “aberrantes,” impactantes de constituições existentes. Já que perguntas e hipóteses a respeito dos aspectos macabros e inéditos de fantasias participantes da festa, decoração com direito à caveiras sobre as mesas dos de possíveis convidados, velas etc. do Clube Magnatas, fossem aventados, a busca acontecimentos que por ventura formulassem esses aspectos será um dos fatores preponderantes para que se possa entender como uma festa de camaval possui além de brincadeiras diversas, o relato de acontecimentos sob signos convenientes, caracteristicas do social e da humanidade“.








