Há tempos a cidade do Rio de Janeiro sofre com a ação inescrupulosa de flanelinhas ilegais que controlam os espaços públicos locais, tornando a vida de quem precisa estacionar difícil e cara, e muitas vezes, infernal.
O jovem Luan Lennon, que disputou um vaga para Câmara carioca pelo Partido Liberal (PL) em 2024, mesmo sem mandato, cargo público em vigor ou aparato institucional, decidiu fazer, o que o poder público falha: fiscalizar a atuação da máfia de flanelinhas que atua em vários pontos do Rio de Janeiro.
Munido de apenas um celular, coragem e disposição, Luan que conta com 897 mil seguidores no Instagram, passou a confrontar, registrar e expor uma das maiores ilegalidades normalizadas do espaço urbano carioca.
Moradores e visitantes da capital fluminense que circulam pelas praias na Zona Oeste e da Zona Sul, ou mesmo pela tradicional Feira da Glória, conhecem bem o roteiro do transtorno e do abuso. Ao estacionarem o veículo em uma vaga na rua, muitos são logo interceptados por um “guardador”, sem qualquer identificação visível e que pratica preços alheios à tabela oficial, com os valores variando de vinte a cem reais. O talão legalizado da Prefeitura vira peça de ficção.
Na abordagem, rapidamente, o tom deixa de ser cordial com o motorista, especialmente quando quando se trata de uma mulher. Os relatos de intimidação, ameaça velada, linguagem agressiva ou chula, são frequentes. Nos casos mais extremos a retaliação é exercida, com carros sendo carros arranhados, retrovisores quebrados, pneus esvaziados e lataria amassada. Em prática que une extorsão, medo e completa ausência do Estado.
É nesse cenário de agressividade e desordem pública que Luan Lennon atua, através dos seus vídeos que mostram cenas surreais de flanelinhas ilegais em ação. Os “donos das ruas” ao serem gravados fogem, arrancam a camisa, atravessam parques, se embrenham pela areia da praia como quem escapa de um flagrante. Outros, mais ousados, partem para cima de Luan para enfrentá-lo, inclusive fisicamente.
Em uma das suas últimas incursões, realizada no início desta semana, Luan Lennon foi à Praia dos Amores, na Barra Tijuca, onde flagrou a atuação de um flanelinha ilegal que usava, inclusive, um colete falso, que acabou sendo despido. No vídeo, Luan pergunta a dois condutores quanto o flanelinha havia cobrado, e os homens respondem: 20 (Reais). No ato, Luan pede para alguém chamar uma viatura para prender o falso “guardador”.
Luan diz ao flanelinha que ele será levado para a delegacia – a 16ª DP. De repente, a confusão se instala, com direito à pedrada, disparo de spray, gritos e embate físico entre Luan e outros aliados do falso “guardador”, que ali atuavam e acabaram debandando. O flanelinha abordado fica sozinho, quando chega uma van da Prefeitura para conter os ânimos.
“Vocês estão vendo o que acontece aqui comigo. Imaginem o que acontece com pai e mãe de família. A mãe que vem ‘curtir’ aqui sozinha. Imagem o que eles não fazem?”, diz Luan na gravação, onde ainda comenta reconhecer o “risco” que corre com a sua atuação:
“Eu sei que cada vídeo que eu faço, pode ser o último. Eles estão cada vez mais agressivos, jogam pedra, vêm para cima. Eu não vou parar. Nada vai me amedrontar. Eu sei que estou aqui por força divina. E só Deus pode me tirar desse combate, até o fim da máfia da extorsão”, disse Luan Lennon no vídeo, que até a madrugada desta sexta-feira (23), registrou 256 mil curtidas e mais de 10 mil comentários, a maioria esmagadora dos verificados, positivos. O vídeo conta ainda com uma “participação especial” do MC Poze, que para o carro no local da confusão e, ao ouvir do que se tratava”, pergunta ao flanelinha: “Não dá para devolver os 20 Reis da coroa, e acabou?”, acelerando o carro em seguida.
Em outros registros de Luan Lennon, a polícia também é chamada e os flanelinhas levados para a delegacia, com o constrangimento público passando a existir para quem até então agia com total sensação de impunidade.
O sucesso do perfil demonstra que a população está refém dessa e da incapacidade histórica das administrações municipais de lidarem com atividades informais que cruzam, há décadas, a linha da ilegalidade.
A função de guardador de carros existe, mas depende de cadastro, identificação visível e cobrança vinculada ao talão oficial. Tudo fora disso é irregular, ou crime, quando há coação, ameaça ou dano ao patrimônio. Luan Lennon ao registrar os abusos praticados na ruas retira o manto da normalidade que por anos protegeu esse tipo de prática, a ponto de transformar o flanelinha ilegal em um personagem folclórico da cidade.
Muitos criticam o método, a exposição e até acham o alarde exagerado, mas o apoio dos seguidores deve ser visto como indício da saturação da população diante do cenário de desordem pública das ruas da cidade.
As postagens com flagrantes da atuação ilegal de flanelinhas geram um debate público cuja intensidade ultrapassa a eficiência das campanhas oficiais ou de operações pontuais da Prefeitura. De repente, a cidade passa a discutir a máfia dos flanelinhas como problema recorrente de ordem urbana, e não como um “mal necessário” do verão carioca – um movimento é impossível de ignorar e que expõe cruamente, a distância existente entre a lei escrita e a rua vivida.




