Após anos de incertezas que quase levaram à devolução da concessão do Aeroporto Internacional Tom Jobim (Galeão), o cenário atual é de uma complexa coordenação política e econômica. O governo federal reafirmou recentemente o compromisso com o reequilíbrio do contrato do Galeão, garantindo que o leilão da concessão ocorra em 30 de março de 2026. Esse movimento busca consolidar o Galeão como o principal hub internacional e de cargas do estado, mantendo as restrições operacionais no Aeroporto Santos Dumont como o pilar de sustentação desse modelo.
A estratégia de coordenação, implementada originalmente no final de 2023, provou ser um motor de crescimento para o Rio. Ao limitar o fluxo de passageiros no Santos Dumont a 6,5 milhões por ano, o sistema viu um aumento de 23% no número total de viajantes no estado, impulsionando a conectividade e a economia local. No entanto, a gestão de uma malha aérea tão sensível exige precisão. Qualquer alteração abrupta nas regras de tráfego pode gerar incertezas tanto para as companhias quanto para os passageiros, que já enfrentam os transtornos sazonais de voos cancelados e reprogramações de última hora em períodos de alta demanda.
A manutenção desse equilíbrio, porém, enfrentou fortes turbulências nas últimas semanas de 2025. O que parecia ser um acordo sólido foi posto à prova por rumores e movimentações técnicas que sugeriam uma flexibilização do teto de passageiros no Santos Dumont. Para a prefeitura e entidades de classe, qualquer recuo na política de restrição do terminal central representa um risco existencial ao Galeão. O debate não é apenas técnico; é uma disputa sobre o modelo de desenvolvimento da cidade, envolvendo desde o turismo de lazer até a capacidade logística de exportação de produtos fluminenses.
“Forças ocultas” e as críticas de Eduardo Paes
Em dezembro de 2025, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, utilizou suas redes sociais para disparar críticas contundentes contra o que chamou de “forças ocultas” atuando dentro da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Segundo Paes, haveria uma tentativa de alterar, “às escuras”, as regras de restrição do Santos Dumont, o que, em sua visão, condenaria o Galeão à ociosidade novamente. O prefeito destacou que a coordenação do sistema é fundamental não apenas para o Rio, mas para o desenvolvimento do Brasil.
A Anac, por sua vez, reagiu com surpresa e repúdio às insinuações de falta de transparência. A agência afirmou que todas as discussões sobre a flexibilização das operações no Santos Dumont vinham ocorrendo de forma aberta desde junho de 2025, sob diretrizes do Ministério de Portos e Aeroportos e referendadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Segundo a agência, as mudanças em estudo decorrem justamente do acordo de repactuação econômica do Galeão, buscando uma solução consensual que preserve a sustentabilidade do contrato de concessão, especialmente diante da licitação prevista para 2026.
Entidades como a Fecomércio-RJ e a Firjan somaram coro ao prefeito. Elas alertam que a restrição no Santos Dumont trouxe benefícios econômicos claros, como o aumento da movimentação de cargas e a vinda de novas companhias internacionais para o Galeão. A flexibilização agora, argumentam, geraria um desequilíbrio no sistema aeroportuário, prejudicando o setor de serviços, o comércio e o turismo, que vivem um ano recorde em 2026.
Apesar do ruído político, o Ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, adotou um tom conciliador durante coletiva realizada em 19 de janeiro de 2026. Ele confirmou que o leilão do Galeão está mantido para 30 de março e que a prioridade absoluta é cumprir o que foi pactuado no modelo econômico-financeiro do contrato. Costa Filho enfatizou a “beleza da democracia” ao se prontificar a ouvir o prefeito Eduardo Paes em uma reunião agendada para a segunda semana de janeiro, visando alinhar as expectativas e buscar a “melhor solução para o Rio e o Brasil”.
O ministro ponderou que, embora a restrição tenha sido vital, o crescimento robusto do setor aéreo gera novas demandas. O desafio do governo é permitir que o Santos Dumont cresça de forma que não canibalize o Galeão. Para fundamentar as próximas decisões, a Infraero está conduzindo um estudo estratégico para avaliar o valor dos ativos da União, incluindo o terminal central carioca e participações em outros aeroportos concedidos. Esse estudo deve ser concluído em seis meses e servirá de base para a decisão final do presidente Lula sobre o futuro do Santos Dumont: se ele passará por uma nova concessão ou se permanecerá sob gestão específica.
Analistas especulam que o governo federal tentará encontrar um meio-termo técnico. A manutenção do leilão em 30 de março indica que o reequilíbrio econômico do Galeão é um caminho sem volta, mas o teto de 6,5 milhões de passageiros no Santos Dumont pode sofrer ajustes marginais para acomodar o aumento da demanda doméstica sem comprometer os voos internacionais do Tom Jobim.
Os próximos passos incluem:
- Reunião de janeiro: o encontro entre Paes e Costa Filho será o termômetro do clima político. Se o governo conseguir convencer a prefeitura de que a flexibilização será mínima e controlada, a resistência política deve arrefecer.
- Leilão de março: o sucesso do certame será a prova de fogo. O interesse de grandes operadoras internacionais dependerá da segurança jurídica em relação à coordenação do sistema. Se as regras mudarem drasticamente antes do leilão, o valor do ativo pode cair.
- Estudo da Infraero: o resultado do levantamento definirá se o Santos Dumont será leiloado em 2026 ou 2027. Uma concessão conjunta ou vinculada entre os dois aeroportos é uma tese defendida por alguns especialistas como a solução definitiva para evitar a competição predatória entre eles.
Em suma, o acordo para a manutenção do contrato do Galeão é uma peça de engenharia política que ainda sofre ajustes. O Rio de Janeiro, que encerra 2025 com números recordes no turismo, precisa de um sistema aeroportuário que funcione em harmonia. Enquanto o Galeão se firma como o fundamental nas conexões globais, o Santos Dumont permanece como o ativo estratégico que, se bem gerido, pode ser o complemento perfeito da aviação fluminense.




