

Antes que o Rio fosse dominado pelo ronco dos motores, pelo apito das fábricas, pelas buzinas e, mais tarde, pelas sirenes, a cidade era governada por outro tipo de ruído. Um som que vinha de cima, atravessava ruas estreitas, entrava pelas janelas, interrompia conversas e organizava a vida cotidiana: o som das igrejas. O Rio de Janeiro dos séculos XVIII e XIX não rezava em silêncio. Rezava em voz alta — e toda a cidade ouvia.
No coração comercial da cidade, onde hoje passam executivos apressados e turistas distraídos, os sinos da Igreja da Irmandade da Candelária marcavam não apenas as horas, mas os estados de espírito da cidade. O dobrar lento anunciava morte; o repicar festivo chamava para celebrações solenes; o toque prolongado interrompia o comércio, fechava portas, suspendia negociações. Na antiga Rua Direita, atual Primeiro de Março, mercadores sabiam que certos dias e certos sons exigiam respeito. Não era apenas fé — era ordem urbana. Como mostram documentos analisados por Beatriz Catão Cruz Santos, as irmandades não apenas rezavam: elas organizavam o tempo e o comportamento da cidade.
Esse som não ficava restrito às grandes matrizes. Ele se espalhava pelas ruas mais movimentadas do Rio oitocentista, especialmente pela Rua do Ouvidor, onde o burburinho cotidiano se misturava às vozes das procissões. Da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos – na Uruguaiana – saíam cortejos acompanhados por ladainhas cantadas, tambores e vozes em uníssono. As irmandades de homens pretos, pardos e brancos disputavam não apenas espaço, mas também o direito à voz. Quem podia cantar? Quem podia tocar? Quem tinha autorização para transformar a rua em extensão do rito? Esses conflitos aparecem em atas, compromissos e reclamações formais — a cidade escutava, mas nem sempre em harmonia.
Em outros pontos do Centro, o som ganhava contornos ainda mais sofisticados. Na Igreja de São Francisco da Penitência, missas solenes com música polifônica impressionavam viajantes estrangeiros, que descreviam o impacto daquela combinação de ouro, arquitetura e som. A música sacra, executada por coros e instrumentistas, não era mero acompanhamento litúrgico: era espetáculo urbano, capaz de atrair curiosos, fiéis e passantes. Como lembra a pesquisadora Geysa Pereira de Magalhães, o ritual não se limitava ao altar — ele produzia uma experiência sensorial completa, que transbordava para a cidade.
Mas foi justamente esse excesso sonoro que, em certo momento, começou a incomodar. E ninguém registrou isso de forma mais saborosa do que Machado de Assis. Em 1876, em uma de suas crônicas publicadas na História de Quinze Dias, Machado resolveu reclamar publicamente da música tocada pelos sinos da Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, cravada no coração da Rua do Ouvidor. Não se tratava de simples repique religioso: o raríssimo carrilhão de 12 sinos da igrejinha dos comerciantes executava não só músicas sacras como trechos de óperas famosas, de mestres como Offenbach, Bellini e Verdi. Para Machado, aquilo transformava a missa em espetáculo profano, confundia o sagrado com o teatro, fazia a rua “almoçar musicalmente”.
O escritor ironiza o sineiro, a quem chama de “maestro”, e dirige-se diretamente ao bispo, pedindo que intervenha. Seu texto é mais do que uma reclamação pessoal: é o retrato de um conflito urbano claro, localizado e moderno. Um intelectual incomodado com o barulho, moradores afetados pelo uso excessivo do som, uma igreja no centro da cidade expandindo sua presença para além dos muros. Machado não criticava a fé — criticava a invasão sonora do cotidiano. O Rio já discutia, no século XIX, aquilo que hoje chamaríamos de poluição sonora e uso do espaço público.

Esse episódio ajuda a entender algo essencial: o som das irmandades não era neutro, e por vezes variava como seus próprios carismas. Ele organizava, encantava, mas às vezes também incomodava. Ele definia hierarquias, marcava diferenças sociais, criava disputas e obrigava a cidade a reagir. O Rio que rezava em voz alta era também o Rio que aprendia, pouco a pouco, a negociar seus silêncios.
Talvez por isso o tema siga tão atual. No mesmo espaço da Lapa dos Mercadores onde Machado reclamou do carrilhão, a música continua presente — agora de forma consciente, regulada e assumidamente cultural, além de sacra. A cidade mudou, os códigos mudaram, mas o diálogo entre som, fé e espaço urbano permanece. O Rio já foi governado pelos sinos. E, de certa forma, ainda ecoa deles.
Esse diálogo entre som, cidade e fé não ficou preso ao passado. Em 2024, os sinos das igrejas históricas da região da Praça XV voltaram a tocar diariamente, marcando as horas, após uma iniciativa conjunta das irmandades que ali atuam há séculos. Os gigantes de bronze da Igreja de Nossa Senhora do Bonsucesso, ligada à Irmandade da Misericórdia, o carrilhão da Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, e os sinos da Igreja de São José e da Igreja da Santa Cruz dos Militares passaram novamente a pontuar o tempo urbano, devolvendo à cidade um ritmo que parecia perdido desde o século XIX. No mesmo espírito de reencontro com a tradição sonora da cidade, as missas solenes com polifonia sacra celebradas todos os sábados e domingos, às 12h15, na Lapa dos Mercadores, desde 2023, tornaram-se parte do calendário turístico, religioso e cultural do Rio de Janeiro, reeditando, de certa maneira, o papel que as grandes celebrações musicais desempenhavam na Igreja da Penitência no século XIX.




